Nos anos noventa, aquando da explosão da internet – conta-nos Chris Mauro num dos últimos editoriais da Surfer – um grupo de surfistas norte-americano ter-se-á sentido ofendido com a utilização da expressão “surfar na web”. A coisa foi de tal modo que se organizaram para tentar impedir que o seu uso se generalizasse – reclamando junto de muita gente, desde congressistas a editores de revistas de surf. Evidentemente que se tratava de um combate inglório. Por mais heróico que seja o propósito, lutar contra forças imparáveis é pouco avisado.
Não havia nada a fazer. O acto de percorrer com o browser a informação infindável disponível na net passou a ser conhecido pelo mesmo verbo com que um grupo fechado – que se via e era visto como diferente de todos os outros – descrevia o modo como deslizava no mar, usando a energia das ondas. Aparentemente, não poderia haver algo de mais diferente entre o Surf e o “surf” feito à secretária na world wide web. Estávamos perante um mundo de opostos – o que provocou a ira dos nossos companheiros norte-americanos. Mas seria mesmo assim?
Não teria de ser necessariamente através da associação com a generalização da web – talvez o passo mais importante para a democratização do conhecimento desde a invenção da imprensa por Gutenberg e da ideia de escola pública e obrigatória pelo Iluminismo – mas, mais cedo ou mais tarde, era inevitável. O Surf teria de sair do gueto e abandonar o mundo dos “happy few” em que teimava habitar. A razão é simples: poucos actos corporizam de um modo tão exacto características essenciais da vida contemporânea como o de Surfar.
O Surf propriamente dito é uma experiência efémera, passageira e que se limita a um deslizar na superfície. Visto de fora, sublinhe-se, o Surf aparenta partilhar aspectos essenciais para descrever a existência dos nossos dias.
“Surfamos” nos leitores de MP3, que enchemos de músicas que vamos ouvindo de forma aleatória, sem nunca chegarmos a conhecer na totalidade os álbuns de que fazem parte; na televisão, “surfamos” entre canais, asfixiados por uma oferta que é deprimente e excessiva; no ensino, do secundário ao superior, os livros integrais foram sendo trocados por leituras de excertos, sobre as quais “surfamos” sem apreendermos o seu sentido total; na vida laboral, cresce o número daqueles para quem os recibos verdes já não são uma experiência de transição, mas sim uma forma de “surfar” entre rendimentos invariavelmente escassos. Os exemplos do carácter efémero, precário e superficial da vida contemporânea são muitos. As novas gerações, aquelas para quem “surfar na net” é já um acto natural, estão, no fundo, habituadas a equilibrar-se sobre ondas instáveis. Estão habituadas a “surfar”.
O “surf” é uma boa metáfora para a contemporaneidade, aliás revela alguns dos seus aspectos mais negativos. Mas o “surf” não é como o Surf. É verdade que se trata de uma experiência passageira e que não passa da superfície. Contudo, como nenhuma outra, deixa uma marca indelével. Quem faz Surf sabe que o equilíbrio sobre as ondas, a fugir das espumas, marca para sempre, intensamente e de um modo profundo. Esse é, contudo, um segredo que os surfistas devem começar seriamente a pensar em guardar para si, como se se tratasse de um tesouro escondido que não convém desvendar.
Nem toda a gente Surfa. No entanto, o uso abusivo do “surf” arrisca contaminar o mundo perfeito do Surf. O que serve para recordar que, hoje, ganha um novo sentido o velho slogan da Gotcha nos anos oitenta – “if you don’t Surf, don’t start”. É que numa coisa os nossos companheiros norte-americanos tinham razão ao insurgir-se contra a utilização abusiva do verbo Surfar: nada de pior nos poderia acontecer do que o mundo do Surf ver-se transformado numa simples experiência efémera, transitória e superficial, influenciado pelo “surf” que está em tudo o que hoje se faz.
publicado na Surf Portugal.